Por que gostamos de assistir teatro?

Você provavelmente já sentiu aquela sensação de estar assistindo a um musical e querer sair cantando e dançando por aí, assistir a um filme triste e encher os olhos de água ou, ainda, ficar empolgado na cadeira do cinema com as cenas de um filme de ação. Pensa como é estranho gostar de filmes de terror ou suspense. É o mesmo que gostar de sentir medo, ficar ansioso ou ser assustado, mas gostamos, pelo menos alguns de nós. 

Talvez a melhor pergunta não seja “por que isso acontece?”, mas “por que gostamos quando isso acontece?”. A resposta é até bem simples: somos criaturas que precisam lavar a alma. Não existe humanidade sem medo, sem choro, sem risada, sem romance, aventura ou música, e a arte é o jeito artificial, mas genuíno, de passar por todas essas coisas com segurança e conforto. Conseguimos amadurecer quando uma personagem nos empresta seu corpo para vivermos aventuras, amores e perigos, sentado em uma cadeira almofadada.

O primeiro a descrever esse processo de lavagem da alma foi um filósofo grego chamado Aristóteles. Ele era um amante de teatro e dedicou um de seus escritos (poética) exclusivamente a essa temática. Segundo Aristóteles, as tragédias gregas tinham o poder de mostrar os infortúnios no qual todos nós podemos cair, por isso, ele criou um conceito chamado catarse, que significa purificação. Para atingir o momento de catarse, o público, ao assistir a uma peça teatral, recebia uma descarga de emoções dos personagens e, com isso, purificava a alma de suas próprias emoções.

Freud, depois de muitos anos, utiliza essa mesma ideia para fundar a psicanálise, acreditando que a catarse pode ser alcançada através da livre associação de ideias, ou seja, em uma simples conversa entre o psicólogo e o paciente; enquanto fazia um desabafo, a alma do paciente ia sendo purificada dos sofrimentos.

E ele estava certo pois, até hoje, é um dos métodos mais eficazes. Porém, nada como a boa e velha arte para nos renovar, amadurecer e purificar. Disso emana a grande responsabilidade que escritores e diretores têm ao apresentar uma história com a qual muitas pessoas irão se identificar. Ao contar uma história de abuso, de perda ou de dor, é preciso se atentar para a catarse não se transformar em um gatilho, ou um re-sentir.

Um espetáculo é um ato político, ele pode mudar a percepção das pessoas sobre o mundo, mas isso é assunto para a nossa próxima questão: “a arte imita a vida ou a vida imita a arte?”.

Assim como ler vários livros nos faz conhecer vários lugares e épocas, assistir a bons espetáculos nos faz experimentar diferentes sentimentos que lavam e purificam nossa alma, uma verdadeira terapia,  levando-nos a amadurecer com a experiência das personagens.


Lucas Oliver é estudante de filosofia na FAJOPA, fundador da Cia. Católica de teatro ID anjos, escritor, ator, diretor e artista visual. Há 10 anos, dedica-se a desenvolver trabalhos artísticos com crianças e jovens em suas comunidades.

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